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Yoga Sūtra

Atualizado: 17 de mar. de 2023


Na sequência de uma publicação anterior sobre livros que acho interessantes, decidi escrever este texto, que é um resumo de três livros sobre o Yoga Sūtra.

Os Yogasutras de Patañjali de Carlos Eduardo G, Barbosa, O Yoga Sūtra de Patañjali – uma biografia de David Gordon White e O Yoga Sūtra de Patañjali – uma nova tradução e comentário de Georg Feuerstein. Escolhi estes três livros pois achei que seria interessante ter perspetivas diferentes sobre a mesma temática de estudo.

No livro de Carlos Barbosa, existe uma explicação sobre a metodologia da tradução, do plano da obra, quem foi Patañjali, ligação dos sutras com o corpo e os 4 capítulos do yoga Sūtra

Esta tradução tem por base o texto em sânscrito com 196 aforismos.

Segundo o autor foram encontrados alguns problemas relacionados com o decorrer da tradução. Destaco alguns: existem muitas traduções feitas a este texto, o que leva por vezes a algumas comparações entre elas; a forma como o texto foi escrito foi para facilitar a memorização dos sūtras, que estão todos interligados, mas nas traduções por vezes são utilizadas definições ocidentais para determinados conceitos filosóficos indianos, o que por vezes origina alterações ao sentido original.

Sobre quem foi Patañjali, é abordado o seu nascimento místico e a importância que tem para a cultura indiana.

Sobre o Yoga Sūtra propriamente dito, segundo a análise do autor, não existe uma explicação muito aprofundada dos aspetos mais práticos (posturas e exercícios respiratórios) do Hatha Yoga, mas sim os conceitos teóricos envolvidos na prática de yoga.


O primeiro capítulo - Samadhi é sobre os requisitos à prática de yoga.

Inicia com a definição de yoga, aborda depois as seguintes ideias e conceitos:

Meios de expressão – evidências, inventividade, imaginação, sono e memória;

Recolhimento que advém da disciplina e do desapego;

Conhecimento intenso que surge a partir de suposição, avaliação, sensação de realidade e perceção da própria individualidade;

Hábitos mentais cultivados na disciplina;

Entrega ao senhor interior;

Silaba mística Oṃ como expressão do senhor;

Obstáculos que são as dispersões da mente: doença, insensibilidade, dúvida, negligência, imobilismo, desinteresse, divagação, não realização, instabilidade;

Formas de contrariar os obstáculos;

O que se atinge, com estes passos é o samadhi.

No segundo capítulo esses requisitos são aprofundados de forma prática nos oito passos de realização do yoga.

Este capítulo fala de kriyā yoga, o sacrifício, a busca do saber interior e a entrega.

Tem como finalidade produzir samadhi e minimizar as perturbações;

As perturbações são a falta de sabedoria, egoidade, desejo, aversão e apego à vida. A meditação destrói as manifestações das aflições;

A raiz das perturbações é o karma, as ações, que deve ser percebido como o visível e o invisível.;

É o usufruto dessa raiz que faz existir o nascimento, duração da vida e maturidade. O seu resultado é o prazer ou a dor, conforme venham da virtude ou vicio;

Tudo o que resulta do discernimento é sofrimento;

Fala também das oito partes do yoga:

Normas de convivência – yama

Normas de autoaperfeiçoamento – nyama

Posturas de assentamento – āsana

Praticas de controle das forças sutis – prāṇānyama

Recolhimento – pratyāhāra

Concentração – dhāraṇā

Meditação – dhyāna

Superação de si mesmo – samādhi

Os yamas dividem-se em:

Não agressão – ahiṃsā

Autenticidade – satya

Não roubar – asteya

Pratica de vida espiritualmente regrada – brahmacarya

Não cobiçar – aparigraha

Os nyamas dividem-se em:

Limpeza – śauca

Contentamento – saṃtoşa

Sacrifício – tapas

Busca do saber interior – svādhyāya

Entrega ao senhor - Īśvara

Deve-se assim desenvolver ideias contrárias aos maus pensamentos com a finalidade de evitá-los


O terceiro capítulo é sobre a meditação do yoga e os seus resultados.

Neste capítulo fala-se mais de concentração, meditação, e iluminação e como estes 3 passos juntos são samyama – meditação intensa. Quando são conquistados origina-se o mundo do conhecimento natural.

São estes 3 passos internos que compõem a prática do yoga


O quarto capítulo fala do objetivo final do yoga. É o capítulo do isolamento. Fala-se de siddhis, que são o resultado da movimentação das forças oriundas do inconsciente.

Existe ainda uma explicação sobre língua sânscrita, Sāṃkhya e yoga, bem como uma explicação sobre o termo egoidade.

No livro, O Yoga Sūtra de Patañjali, – uma biografia de David Gordon White, o autor escreve sobre outros autores que escreveram sobre o Yoga Sūtra, tanto autores orientais como ocidentais, fazendo um enquadramento histórico.

Existe também a abordagem de como o Yoga Sūtra tornou-se num clássico e a sua viagem até ao seculo XX.

O livro não aborda tanto os aforismos de forma exaustiva, mas sim demonstra as várias visões e opiniões sobre o Yoga Sūtra de Patañjali.

No Yoga Sūtra de Patañjali – uma nova tradução e comentário de Georg Feuerstein, o autor foca-se no sistema filosófico de Patañjali, o Yoga Sūtra, fazendo uma explicação de todos os aforismos existentes.

Começa por esclarecer que muito pouco se sabe sobre Patañjali: pode ter sido um gramático que viveu no seculo II, pode ter sido a incarnação da serpente Ananta, não existem certezas factuais.

Descobertas mais recentes, afirmam que o escritor Patañjali, e o gramático Patañjali, não são a mesma pessoa, pois estão separados no tempo por 4 ou 5 séculos.

Esta falta de informação bibliográfica é comum na India, havendo mesmo a liberdade de atribuir trabalho anónimos a famosos escritores bem como a figuras mitológicas. Um exemplo é a atribuição a Vyāsa do comentário mais antigo e importante no Yoga Sūtra – o Bhāşya

Independentemente desta atribuição ser verdadeira ou não, segundo o autor, existem razões para acreditar que Vyāsa não pertenceu à escola de yoga de Patañjali, mas sim a uma escola de Sāṃkhya.

Lendo o Yoga Sūtra pode se formar uma ideia mais concreta sobre quem foi Patañjali.

Algumas características que se destacam sobre Patañjali, foi que era um pensador sistemático; metafisico com grande precisão e lucidez sobre as suas formulações; praticante de yoga; pode se dizer que é a prova de que o misticismo pode ser abordado de forma racional e que interesses contemplativos e objetivos intelectuais podem ser combinados numa só pessoa.

A filosofia que se encontra no Yoga Sūtra contém prescrições éticas e um método para a alteração da consciência com o objetivo de alcançar a libertação ou autorrealização. O yoga de Patañjali, é normalmente tipificado como aşţa-aṅga yoga, ou como o caminho dos 8 membros: yama, nyama, āsana, prāṇānyama, pratyāhāra, dhāraṇā, dhyāna, samādhi. Estes 8 membros são de facto analisados com algum rigor ao longo do Yoga Sūtra.

Mas, esta secção onde estão incluídos os 8 membros tem uma outra tradição e assim a correta designação do seu sistema deveria ser de Kriyā Yoga.

A atenção dada aos 8 membros, segundo o autor, deve-se ao facto de o lado prático do yoga de Patañjali, ter atraído maior atenção do que a própria filosofia sobre a qual foi criado.

O que não é muito positivo, pois um aspeto não funciona sem o outro e a filosofia contém aspetos bastante interessantes que devem ser estudados.

O Yoga Sūtra está dividido em 4 capítulos e Patañjali, começa com algumas definições.

O primeiro capítulo serve como uma introdução identificando os pontos essenciais para uma prática de yoga


Capítulo I – Samādhi Pāda – 58 aforismos

Este capítulo é sobre:

definição de yoga;

aflições;

desapego:

samadhi;

experiência que provém do estudo meditativo;

devoção ao senhor;

identificação do símbolo Oṃ e cuja recitação leva à contemplação do significado de senhor;

restrições;

distrações da consciência;

sintomas dessas distrações;

para eliminar essas distrações existe a recomendação da prática de concentração com um único apoio meditativo:

explicação do método para tranquilizar a mente: amizade, compaixão, alegria e equanimidade;

o prana como forma de eliminar as restrições;

estados meditativos.

capítulo II – Sādhana-Pāda - 55 aforismos

Este capítulo é sobre o caminho para a realização e é composto por duas tradições independentes, o kriyā yoga de Patañjali, e o aşţa-aṅga yoga.

As principais ideias que retive neste capítulo, foram:

Ascese, autoestudo, devoção ao senhor constituem o kriyā yoga. O seu principal objetivo é a transformação gradual da consciência através da meditação e iluminação;

A fundação do sistema de yoga de Patañjali, é a teoria das causas da aflição;

Dentro do caminho dos 8 passos existe: yama, nyama, āsana, prāṇānyama, pratyāhāra, dhāraṇā, dhyāna, samādhi;

Existem as restrições relacionadas com a vida social: não violência (ahiṃsā), veracidade (satya), não roubar (asteya), castidade (brahmacarya), avareza, não cobiçar (aparigraha);

Existem as observâncias relacionadas com a autodisciplina: pureza (śauca), contentamento (saṃtoşa), austeridade (tapas), autoestudo (svādhyāya), senhor (Īśvara), devoção (praṇidhāna);

É assim criado o código ético relacionado com a prática de yoga de Patañjali.

Capítulo III – Vibhūti-Pāda - 55 aforismos

Este capítulo é sobre os chamados superpoderes, que surgem através da prática de concentração, meditação e iluminação;

Concentração é a união da consciência num único ponto;

Meditação é a fase em que as ideias são consistentemente associadas com o objeto de concentração;

Quando isso acontece surge a iluminação;

A prática da concentração, meditação e iluminação em conjunto e com foco num único objeto chama-se de restrição, que acontece de forma gradual;

Estes três passos, a concentração, meditação e iluminação fazem parte do yoga dos oitos passos, mas são internos e à medida que vão sendo aperfeiçoados surgem os superpamādhi Pāda – 58 aforismosos

Este capítulo final é sobre a consciência transmutada

Continuando sobre o tema dos superpoderes, neste capítulo existe a informação de que podem ser adquiridos através de práticas de ascese: fazendo jejum, ficar parado durante bastante tempo, através de recitação de mantras e utilização de ervas;

Abundância de outras formas de existência;

Processos de criação/ evolução da consciência e de múltiplos corpos através dos superpoderes;

Consciência que é transmutada através da prática de yoga, pela interiorização que provém de estados meditativos;

Ativadores que surgem de acordo com a qualidade moral das atividades realizadas anteriormente;

Remoção das imperfeições, aflições que deixaram de ser importantes para o self, deixam de vibrar no corpo e mente do praticante e passam a ser resolvidas no núcleo não manifestado.

Da leitura destes três livros, fico com a ideia de que estes livros e os próprios comentários não serão um produto acabado em sim mesmo, cada leitura leva para outras pesquisas e leituras, que um praticante de yoga deve fazer para aprofundar o seu próprio caminho na prática de yoga.

Dos três livros que li, o que me interessou mais foi o do Georg Feuerstein, pois aprofunda os aforismos, sem ser excessivamente exaustivo. Explica de forma acessível, remete para outros autores quando se justifica, e nalguns casos faz uma interpretação dos aforismos facilitando o seu entendimento.

Bibliografia

Barbosa, Carlos Eduardo G (1999) Os Yogasutras de Patañjali, S. Paulo, editado pelo autor

White, D. G. (2014) O Yoga Sutra de Patañjali – uma biografia, Princeton University Press

Feuerstein, G (1979) O Yoga Sūtra de Patañjali – uma nova tradução e comentário, Folkestone, Eng.:Dawson

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